Adoro milho verde! Em qualquer lugar, a qualquer hora.
Não é coisa só de praia não. É também de cidade, de esquina do metrô, de ponto de ônibus, de porta da escola.
Só de mordiscar aquele grãozinhos macios, todos enfileirados, sinto tremenda satisfação, um prazer imenso.
Milho verde me lembra meu avô paterno. E a única lembrança real e visual que tenho dele, roubando meu milho e comendo fileira sim, fileira não. Fazia estradas na minha espiga, e depois me devolvia. Demorava um tempão nesta tarefa. E eu, depois de esperar pacientemente, comia os caminhozinhos já frios, porém mais gostosos, e feliz da vida porque tinham sido feitos especialmente para mim.
Mas hoje gosto de comê-los sem nenhuma arquitetura, nenhum planejamento. A cada mordida, enquanto os moles caroços se derretem na boca, os olhos fitam a mancha branca que se vai formando, destruindo a perfeita simetria das linhas.
O cheiro doce, forte, grande, penetra aos poucos por todo o corpo. Um cheiro-memória que vai alargando a fenda crua no meio das fileiras amarelas. Surgem caminhos tortuosos, buracos desiguais, desfazendo os fragmentos de lembrança que aparecem como linhas tênues e permanecem em imagem apenas um breve instante. Até que toda cor se acabe em um simples bagaço.
Adoro o gosto e o cheiro do milho porque eles me levam para bem longe daqui.
Devagarinho, miudinho, sem me importar mais com coisa nenhuma.
"...dizia que o certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundezas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma." (João Guimarães Rosa - Manuelzão e Miguilim)
Hora da mudança, da renovação, da esperança... e tudo isso no lugar mágico, perfeito... Entre ruinas e espíritos de uma civilização talvez mais evoluida humanamente que a nossa, vamos tentar absorver crescimento, realização, paixão!!! Perfeito é ter parceiras do coração para dividir tudo isso. Eis o plano, Pri... Machu Picchu nos aguarde!!!
Caminharei 4 dias. Por vales e montanhas nevadas. Com mochila, panelas e comida nas costas. A 4000 metros de altura. O Reveillon será no terceiro dia. No acampamento, nos altiplanos da América do Sul. No dia primeiro de janeiro de 2008 entrarei no Vale Sagrado. Na hora certa, na companhia perfeita. E com o pé direito.
Hoje. Segunda-feira à tarde, 15:00. Estou em casa, com roupa de ficar em casa, escrevendo no meu blog, e quando acabar vou ler o livro que está à minha espera na cabeceira da cama. Um livro de ficção, ao qual vou entregar-me completamente até me esquecer da realidade. Até que eu descubra quem matou o pintor e o tio do narrador.
Como é bom poder ser dona do tempo. Poder amarrá-lo com uma cordinha e sair por aí, carregando-o pelas costas. Nem que seja apenas por algumas horas. Sem estar de férias. Em um dia útil. E sem me sentir inútil.
É o meu momento de poesia, em que sinto a eternidade inteira.
Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes.
Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.
Ontem fiz um curso de meditação, lá na escola de yoga. Das 8 da manhã às 8 da noite.
Não me cansei nem senti o tempo passar. Entrei com a mente cheia (de idéias, de memórias, de pessoas) e saí com ela vazia.
Então entendi como é bom tirarmos alguns momentos do dia para esvaziar a mente. E não pensar em nada. Concentrar-se em um símbolo, um mantra ou uma música, até que a consciência se expanda e se esqueça de si mesma.
O dia-a-dia nos faz esquecer de que somos feitos de ritmos e silêncios. Buscamos sempre o ritmo ideal, mas deixamos de lado o não-ser.
Ontem senti algo que nunca havia sentido antes: a minha própria paz. Única e essencial.
Pares a postos. A sanfona espreme-se, derramando a primeira nota pelo salão.
Corpos arredondam-se por todo o espaço. Logo, a zabumba marca o um dois três dos passos, e o triângulo, tilintando sua presença pela composição, acaricia, com malicia e cumplicidade, cada nota que acompanha.
Fecho os olhos e parece que vôo. O corpo perde-se em sua imaginação, em variações infinitas de um mesmo compasso. Seguindo o ritmo do batuque, os pés advinham os movimentos e saracoteiam livres e soltos.
Aos poucos, a música decompõe-se dentro da alma e eu perco-me de mim.
Os passos vêm por si só, sem ensinamento ou aprendizado prévio. É como se fosse a alma que dançasse. E eu dôo-me por completo. Me sinto leve, livre, feliz.
Quando o ritmo dos pés atinge o intervalo perfeito, todo o corpo vive a experiência infinita da harmonia musical, corporal, sensorial.
Os corpos esquecem-se em sua dança própria, única, singular.