Desses que a gente guarda com todo cuidado para não rasgar nem amassar.
Não o vi cair. Eu andava no meio da multidão e, quando me dei conta, ele já não estava mais lá no lugar onde deveria estar. Deve ter descolado e escorregado pela camiseta, - foi o que pensei - olhando por baixo da roupa logo o encontrarei. Mas não o encontrei. Ou talvez eu o tenha deixado em cima da mesa do restaurante, foi outra conjectura. Mas quando lá voltei não havia nada, nem ninguém havia visto coisa parecida. Andei pelas ruas enlouquecida. Perguntei nas lojas por onde havia passado e às pessoas que andavam pelas calçadas. Dei-lhes a descrição minuciosa de tamanho, espessura, cor, volume, disse-lhes que não me lembrava de como havia acontecido. Espalhei cartazes de PROCURA-SE.
"Isso você não recupera mais", era tudo o que eu obtinha em troca. Passaram-se meses, e o sorriso fazia falta. Procurava-o desesperadamente dia e noite por todos os lugares da cidade. Mas sempre sem resultado. Custei a acreditar que nunca mais o teria de volta.
Até que um dia desisti da busca.
Já se havia passado tanto tempo que eu nem dava mais por sua falta, pois o vazio havia-se tornado rotina. E passou a fazer de tal forma parte de mim, que eu já não podia mais viver sem sua (des)presença.
Até que um dia, inesperadamente, o sorriso apareceu. Foi lá, na casa velha. Bateu à porta, pediu licença. Havia uma festa, a casa estava cheia, os amigos espalhados pelo chão de madeira da sala. Mas eu deixei-o entrar. Desde então, nunca mais foi embora.
Hoje uma aluna da primeira série, de descendência chinesa, me deu um bilhetinho escrito assim: "a professora priscia ela ensina inglês, é legal, eu gosta médio obrigado. Qual você mais gosta de cor?". Me deu um beijo e saiu correndo pelo pátio.
O bilhete era um segredo. Não era prá contar prá ninguém ("nigém, ela escreveu em cor-de-rosa em baixo).
Desculpe-me, Amélia, mas achei tão singelo o seu gesto que resolvi dividir com o mundo. Valeu o meu dia. Curou-me do mal-humor em que estava por saber que iria perder mais um fim de semana preparando e corrigindo provas...
"When you are looking for something to do for your entire life, do not ask yourself what the world needs. Ask yourself what makes you come alive, because what the world needs is people who have to come alive." - Gile Baile
quero encontrar você o dia amanhecendo num buteco tomando média olhos claros translúcidos - você, aqui?
de repente nós dois e o resto.
a gente vai andando andando dando risada falando bobagem pisando a paisagem viagem
de repente numa esquina de terno o tempo vai passar apertado apressado. a gente pára o tempo. diz a ele, calmamente,
como é a felicidade e vai seguir seguir seguir...
(Chacal)
A felicidade de um simples momento em boa companhia nos faz esquecer da paisagem, das pessoas ao redor e do tempo. Este, é como se parasse. Vive-se uma alegria sem hora nem lugar, regida por uma outra lei, um outro tempo. Um tempo que aparece descontraído, relaxado, sem camisa, de bermudas, dizendo: "estou indo, preciso passar, but take your time". E acena com uma mão um quase-adeus sincero, e nos deixa aproveitar um pouco mais a alegria daquele breve instante.
E tudo se apaga: o cenário, o relógio, as pessoas que não fazem parte daquele pequeno universo temporário…
Quero Dançar às quintas às sextas e aos domingos O corpo leve Os amigos em casa Milho na esquina Pedalar pelas ruas Correr na praia Ler Saramago Amar e ser amada Vinho com amigos Uma boa conversa na balada até o sol raiar O homem ideal Pastel na feira Comida da mãe com tempero da vó Regar as plantas aos domingos Confidências com as amigas Ler um bom romance Viver a poesia Discutir filosofia Tocar violão Conversa ao pé do fogo pela madrugada adentro Praticar yoga Acampar Ouvir Toquinho Um papo cabeça Comer kabob Acender fogueira Esquecer-me do tempo Falar francês Telefonar ao meu irmão Ir ao teatro Dizer não! Crônicas no jornal Torradas com requeijão Libertar-me dos padrões Não ter religiões Pôr do sol no mar Olhar o horizonte na praia deserta na companhia certa Cortar lenha no acampamento Dividir a cama Deitar no chão e ouvir Bebo Valdés Esperar um telefonema Mandar um recado sincero Ter um amigo especial Escrever Ler Reler Desler Tocar Chico para alguém Maquiar-me ao espelho Vestir-me para um jantar Olhar as estrelas deitada na grama Dormir numa barraca Banhar-me na cachoeira Receber uma declaração de amor Rever velhos amigos Fazer novas amizades Conhecer a fundo as pessoas e os lugares Doar-me em uma conversa Ser verdadeira Sem máscaras Derrubar constrangimentos Ser única Ser especial para alguém Ser mágica Ser eu