quinta-feira, 17 de abril de 2008

Migalhas













VAZIO

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.

(Augusto Frederico Schmidt)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O chão e eu
















Tem gente que caminha com os pés no ar,
em passos de vento
Não olham para baixo,
apenas rasgam o céu

Eu preciso pisar o chão
prá sentir que cheguei
Andar, sentar, deitar
grama, terra, concreto,
prá sentir que fiquei,
que estou
que sou


terça-feira, 8 de abril de 2008

Só prá avisar...


UMA REDE UMA RODA


se saio na rua
não levo guarda chuva
não levo destino
quero um susto

se caio na tua
não quero guardanapos
não quero certeza
trago uma rede
e uma roda

(Chacal)

segunda-feira, 7 de abril de 2008

EVANESCÊNCIA
















Sai sutilmente pelas frestas da caixinha
a fumaça.

Um fio único,
que em linhas outras se multiplica.
Cada uma em si e por si
dançam seus contornos e se esvaecem pelo ar
Desenham seus caminhos-curva
em fios de seda que o vento embala

Imagens-segundo de uma dança que evapora.

Observo
E deixo-me levar
para cima, para os lados,
em círculos, caracóis, espirais,
para dentro

Em visível perfume,
contornos de pensamentos
imagens-idéias
efêmeras linhas que paralizam
hipnotizam

Observar o aroma que dança
evapora a mente


sexta-feira, 28 de março de 2008

(Des)presença


Sou o silêncio à minha volta. Sou o meu próprio vazio. Mas é na ausência, que guardo o segredo do mundo.


segunda-feira, 24 de março de 2008

Liberte-se!!!!


"Mas, entre nós, o homem mais valente tem medo de si próprio [...]. Somos castigados por nossas recusas. Todo impulso que nos esforçamos por estrangular remói em nossa mente, e nos envenena. [...] A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é capitularmos a ela. Resista, e a alma adoecerá, na saudade das coisas que proibiu a si mesma, no desejo por aquilo que suas leis montanhosas tornaram monstruoso, ilegal. Tem-se dito que os grandes eventos do mundo ocorrem no cérebro. É no cérebro, apenas no cérebro, que ocorrem, também, os grandes pecados do mundo."

(Oscar Wilde - O Retrato de Dorian Gray)

sexta-feira, 14 de março de 2008

Desapego


O rádio do meu carro foi roubado.
Meu tênis de corrida e sapato de dançar também.
Levaram até meus óculos de grau.
O carro vai passar o sábado e domingo no conserto.
Meu celular, que até anda sozinho, está quebrado.
Pifou e fiquei sem o número de telefone dos meus melhores amigos.

Na yoga ensinam que o desapego traz o "estado de paz".
Será?
Vou deixar tudo como está.
Só como teste.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Ode à quinta-feira


Hoje voltei a comer milho na esquina do metrô.
Logo depois de descer do ônibus e pouco antes de entrar na estação.
Pequeno gesto que faz todo o resto do dia parecer insignificante.


quarta-feira, 5 de março de 2008

Sobre pinturas e escrituras











Escrevo o meu silêncio, e com isso me escrevo.

As palavras colorem a folha branca,
e aos poucos uma silhueta-outra,
por minhas próprias mãos desenhada,
ensaia seus tímidos
passos para além do vazio.

Às vezes me canso das cores
e então me reescrevo.
Revisito, revisto, reviso, reviro
meu eu de papel e tinta,
em busca de um colorido novo.

E um então eu de silêncio,
na brancura vazia se colore,
desenhando contornos de seu ser-outro
em sons de página e tela.